Histórias que Cecília contava



No livro Histórias que Cecília Contava, a tradição oral africana é registrada a partir dos contos de fada da velha lavadeira de uma fazenda do interior de Minas.
Por Douglas Resende



Quando escurecia na Fazenda de Santa Cruz, em Piedade do Rio Grande, Sul de Minas, e se acendiam as velas, lamparinas e lampiões, as crianças tomavam logo o rumo da cozinha, onde encontravam, sobre o chão de terra batida, ao lado de um braseiro, a lavadeira Cecília. A força que aquela preta velha, descendente de escravos, exercia sobre as crianças da fazenda estava no fato de ela carregar em sua memória um baú farto de histórias, transmitidas numa narrativa fabulosa e melodiosa que conduzia os meninos para dentro de contos de fada fantásticos e universais.

O público de Cecília era formado pelos netos de José Custódio Ribeiro, dono da Fazenda de Santa Cruz. Como depois de muito tempo não tivessem apagado da memória aquelas noites, dois deles, o hoje historiador José Murilo de Carvalho e a lingüista Maria Selma de Carvalho, resolveram botar no papel os contos de Maria Cecília de Jesus, cerca de 60 anos depois, o que deu no livro "Histórias que a Cecília Contava" (Editora UFMG).
Com a ajuda de uma irmã mais nova, a jornalista Ana Emília de Carvalho, que ficou a cargo de uma minuciosa pesquisa documental, em cartórios e álbuns família, a fim de reconstruir a genealogia de Cecília, José Murilo e Maria Selma organizaram 22 contos transmitidos oralmente pela própria Cecília e por sua sobrinha Maria das Dores Alves, a Dóia, que herdou as histórias da tia. Os contos transcritos de gravações feitas por Maria Selma vêm acompanhados no livro de um CD com o áudio das gravações, onde ouvimos, apesar da precariedade - no caso de Cecília, as contações foram gravadas há 40 anos - a melodia e a interpretação das contadoras de história.
"Histórias que a Cecília Contava" tem para os irmãos organizadores, antes de mais nada um valor sentimental. "Porque faz parte da nossa infância", disse Maria Selma, acrescentando que inicialmente havia feito os registros apenas para ela própria. José Murilo relembra as noites de histórias ao redor da fogueira. "Meus irmãos e eu éramos fãs incondicionais das histórias da Cecília. Sentados no chão da cozinha, aquecidos pelas brasas de uma pequena fogueira, que ela mesma fazia, ouvíamos fascinados, às vezes divertidos, muitas vezes angustiados, apavorados apenas quando os casos eram realistas, o desenrolar das histórias", contou ele. "Com o tempo, sabíamos de cor os contos e corrigíamos a Cecília quando ela se esquecia ou se equivocava. Mas não cansávamos de ouvi-los, pelo seu próprio encanto e pelas habilidades de Cecília como contadora de histórias. Ela abriu nossas mentes para o mundo do encantado e isso não tem preço."
Foi José Murilo, professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), quem atentou para o valor cultural, principalmente historiográfico, antropológico e literário, das gravações feitas por Maria Selma e assumiu a iniciativa do projeto do livro. "Do ponto de vista historiográfico, a história de Cecília e de seus antepassados enriquece o entendimento da natureza da escravidão em Minas Gerais no século XIX e da transição para o trabalho livre. Seus antepassados pertenciam a fazendas de produção de leite e cereais, com número pequeno de escravos, em torno de dez, sem grandes senzalas, em que as relações com os donos eram muito próximas, sem deixar de serem de escravo-senhor. Na transição para a mão de obra livre, esses ex-escravos passaram a morar em terras públicas ou doadas nas redondezas das antigas fazendas e a trabalharem para os antigos senhores", explicou o professor.
Lingüística. Do ponto de vista literário, o que mais interessa, segundo ele, é o aspecto lingüístico. "A maneira de falar de Cecília, seu vocabulário, é um maná para estudos do português caipira, que era também falado pelos donos das fazendas. Comparando-se seu modo de falar com o de sua sobrinha Dóia e com o português normatizado, tem-se um quadro nítido da evolução da fala da língua."
José Murilo analisa os dois aspectos no prefácio de "Histórias que a Cecília Contava" e diz que a linguagem popular brasileira - veículo das histórias de Cecília - "surgiu de um reforço mútuo das fonéticas do português arcaico e de línguas africanas. Uma de suas características foi a hemorragia das vogais. A língua popular tem alergia a consoantes e paixão pelas vogais", escreveu José Murilo. Assim, na boca de Cecília, folha, por exemplo, vira "fôia", coelho, "cuei", andando, "andano", flor, "fulô".
A horta de couve do rei. As narrativas de Cecília e sua sobrinha Dóia são, em parte, de origem européia e guardadas pela tradição oral africana. Na história delas pode ser percebida uma série de ligações com a formação da cultura brasileira. Como José Murilo ressalta no livro, cenas semelhantes às da Fazenda de Santa Cruz "repetiam-se infinitas vezes Brasil afora, nas fazendas, engenhos, sobrados urbanos: uma preta velha contando histórias para crianças e abrindo para elas o mundo encantado dos contos de fada."
A própria literatura brasileira está cheia de referências a essas personagens. Tia Nastácia de Monteiro Lobato talvez seja a mais famosa delas. "Mamãe conta de uma (negra velha) que era um verdadeiro dicionário de histórias folclóricas, uma de nome Esméria, que foi escrava de meu avô. Todas as noites ela sentava-se na varanda e desfiava histórias e mais histórias", diz Pedrinho, no livro "Histórias de Tia Nastácia".
José Murilo e Maria Selma perceberam também que os contos narrados por Cecília eram muito parecidos, quase idênticos, aos que haviam registrado Câmara Cascudo, Sílvio Romero e o próprio Monteiro Lobato. E uma conclusão os surpreendeu: os contos de Cecília são parecidos não apenas com seus pares afro-brasileiros, mas a maioria deles, como já apontara Cascudo, é quase idêntica aos contos-de-fada europeus, às histórias de Perrault e dos irmãos Grimm.
"Como uma mulher, analfabeta, sem nunca ter saído do interior de Minas, poderia conhecer esses contos?", inquietou-se Maria Selma, dando ela mesma a resposta: "Lógico que ela ouviu da mãe dela, que, por sua vez, ouviu de sua avó, na certa uma africana escravizada no Brasil".
José Murilo concluiu que "necessariamente, em algum momento, em algum lugar, em alguma fazenda, alguém familiarizado com a tradição folclórica européia transmitiu os contos para um antepassado de Cecília, talvez a avó, que os decorou e passou adiante". Mas disse que nenhuma evidência capaz de esclarecer esse ponto foi encontrada na pesquisa. "Há um elo perdido em nossa história."
No entanto, além de inserir as histórias europeias dos contos na musicalidade da fala, típica de dialetos africanos, e na linguagem popular tupiniquim, Cecília os abrasileirava em sua contextualização. "Há reis, príncipes, princesas e palácios. Mas a riqueza é composta de muita roça de milho, de chiqueiros cheios de capados, de gado batendo chifre nos pastos", disse José Murilo. "No conto ‘'O Gigante’', o rei possui uma horta de couve. As pessoas comem arroz, feijão, couve, bebem café, andam de carro de boi, pescam dourados nos rios. Não há neve, mas geada, abutres viram urubus. Maria das Dores consegue até mesmo introduzir índios em sua versão de ‘João e Maria’ de Grimm."
O que mais admira José Murilo nessa apropriação é o fato de uma descendente de africanos escravizados, analfabeta, que, "se valendo da tradição da oralidade de seus ancestrais, transmitiu a gerações um tesouro da cultura europeia em linguagem brasileira. O fenômeno verificou-se no Brasil inteiro e é parte da contribuição africana à nossa cultura."

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