Dica de leitura

THOREAU, Henry David.  Walden ou A vida nos bosques. São Paulo: Global, 1984. (Coleção Armazém do Tempo)  

Mais que uma universidade, minha residência favorecia não apenas a meditação, mas também a leitura em profundidade; e embora me encontrasse fora do alcance da biblioteca ambulante comum, estava mais que nunca influenciado por aqueles livros que circulam ao redor do mundo, cujas frases foram escritas originalmente em cascas de árvores e agora são copiadas, de tempos em tempos, em papel de linho. Diz o poeta Mîr Camar Uddin Mast: “Percorrer as regiões do mundo espiritual enquanto estou sentado, eis uma vantagem que achei nos livros. Embriagar-me com um único copo de vinho, eis o prazer que experimentei quando bebi o livro das doutrinas esotéricas.” Por todo o verão deixei a Ilíada de Homero em cima da mesa, embora só a folheasse de vez em quando. Por ter a princípio, as mãos constantemente ocupadas, pois à mesma época concluía a casa e cultivava os feijões, foi impossível mais estudo. Entretanto me consolava com a perspectiva de semelhante leitura no futuro. Nos intervalos do trabalho, li um ou dois livros de viagem superficiais, até que me envergonhei disso e me questionei onde é que eu vivia afinal.

O estudioso pode ler Homero ou Ésquilo em grego sem risco de dissipação e epicurismo, pois a leitura até certo ponto o leva a imitar seus heróis e consagrar horas matinais aa suas páginas. Os livros heróicos, mesmo quando impressos nos caracteres de nossa língua materna, em tempos decadentes serão sempre em língua morta, e devemos procurar o significado de cada palavra e de cada linha laboriosamente, aventando sentidos que o uso comum não permite, lançando mão de nosso talento, sabedoria e generosidade. A imprensa moderna, de pouco valor e abundante, com todos as sua traduções, tem feito pouco para nos colocar em contato com os escritores heróicos da antiguidade. Estes permanecem tão solitários como sempre e as letras usadas na impressão das suas obras são raras e excêntricas. Vale a pena empregar dias da juventude e horas preciosas aprendendo ao menos algumas palavras de língua clássica, recrutadas fora da vulgaridade das ruas e fontes perpétuas de sugestões e provocações. Não será em vão que o agricultor recorde e repita as poucas palavras latinas que ouviu. Às vezes pessoas comentam que o estudo dos clássicos acaba por abrir caminho a estudos mais modernos e práticos; mas o estudante ousado sempre se dedicará aos clássicos, em qualquer língua que estejam escritos e por mais antigos que sejam. Pois o que são os clássicos se não o registro dos mais nobres pensamentos do homem? São os únicos oráculos que não entraram em decadência e há neles respostas a indagações atuais como Delfos e Dodona nunca deram. Poderíamos também deixar de estudar a Natureza porque é velha. Ler bem, isto é, ler livros verdadeiros com espírito verdadeiro, é um nobre exercício que põe à prova o leitor mais do que qualquer outro exercício tido em alta conta nos hábitos contemporâneos. Exige um treinamento semelhante àquele a que se submetem os atletas, a firme perseverança de quase toda a vida nesse objetivo. Os livros devem ser lidos com o mesmo cuidado e circunspecção com que foram escritos. Não basta, inclusive, ser capaz de falar a língua do país em que foram escritos, pois não se pode esquecer a distância entre a linguagem falada e a escrita, que se ouve e a que se lê. A primeira é comumente transitória, som, fala, simples dialeto quase irracional que aprendemos com nossas mães, inconscientemente que nem animais. A outra representa sua maturidade e experiência. Se a primeira é nossa língua materna, a segunda é nossa língua paterna, expressão selecionada e discreta, demasiado significativa para ser captada pelo ouvido, e para poder falá-la precisamos renascer. Na Idade Média, as multidões que apenas falavam o latim e o grego não estavam capacitadas pelo mero acidente de nascimento a ler as obras-primas escritas em tais línguas, já que não estavam escritas naquele latim ou grego que elas conheciam, mas na linguagem especial da literatura. Essas multidões não haviam aprendido os mais nobres dialetos da Grécia e de Roma, e o material em que se escreviam estes não passava de lixo para elas, que davam preferência à literatura contemporânea de má qualidade. No momento, porém, em que as várias nações da Europa adquiriram linguagens escritas próprias, distintas se bem que rudes, mas aptas aos propósitos de suas literaturas nascentes, logo a cultura renasceu e os eruditos puderam então discernir, a partir daquela distância, os tesouros da antiguidade. O que a massa de romanos e gregos não podia ouvir, após um lapso de século, pequeno número de doutos podia ler, e continua lendo até hoje.

Por mais que possamos admirar as ocasionais explosões de eloqüência dos oradores, as mais nobres palavras escritas situam-se, geralmente, muito além e acima da fugidia linguagem oral, assim como o firmamento com suas estrelas fica muito além das nuvens. Existem estrelas e leitores a sua altura. Constantemente os astrônomos estão comentando sobre elas e observando-as. Não são exalações como nossas conversas cotidianas e o vapor de nosso hálito. O que se chama de eloqüência no tribunal geralmente se revela à análise como sendo retórica. O orador entrega-se à inspiração de um momento efêmero, e dirige-se à turba diante dele, aos que podem ouvi-lo; já o escritor, cuja vida mais estável é sua necessidade, e que se distrairia com o evento e a audiência que inspiram o orador, dirige-se à mente e ao coração da humanidade, a todos em qualquer época  capazes de entendê-lo.

Não é de se admirar que, em suas excursões, Alexandre levasse consigo a Ilíada dentro de um cofre precioso. A palavra escrita é a relíquia por excelência. É algo ao mesmo tempo mais íntimo de nós e mais universal que qualquer outra obra de arte. É a obra de arte mais próxima da própria vida. Pode ser traduzida em todas as línguas, e não apenas ser lida, mas proferida de fato por todos os lábios humanos; não apenas ser representada em tela ou mármore, mas esculpida no sopro da própria vida. O símbolo do pensamento do homem antigo tornou-se a fala do homem moderno. Dois mil verões conferiram aos monumentos da literatura grega, bem como a seus mármores, apenas o matiz outonal de um dourado mais maduro, porque eles levaram suas próprias atmosferas serenas e celestiais a todos os recantos da terra para protegê-los contra a corrosão do tempo. Os livros são a riqueza do mundo entesourada e o justo legado de gerações e nações. Os livros mais antigos e melhores permanecem de maneira natural e adequada nas prateleiras de todos os chalés. Não precisam alegar nada, mas o bom senso do leitor não os recusará enquanto encontrar neles instrução e sustento. Seus autores constituem aristocracia genuína e irresistível em toda sociedade, e, mais do que reis e imperadores, exercem influência na humanidade. Quando comerciante analfabeto, talvez desdenhoso, já conquistou com arrojo e trabalho sua cobiçada folgança e independência, passando a ser admitido nos círculos da riqueza e da moda, volta-se por fim, inevitavelmente, para aqueles círculos ainda mais elevados e inacessíveis do intelecto e do espírito, momento em que percebe a imperfeição de sua cultura a par da vaidade e insuficiência de todas as suas posses, e manifesta, daí em diante, seu bom senso pelos esforços no sentido de assegurar aos filhos a cultura intelectual cuja falta sente de modo agudo; e é assim que se transforma no fundador de uma família.

(Apenas um trecho do livro de Henry David Thoreu, ótima dica de leitura passada pelo prof. Paulo Edyr, UEMS).
Ciro Ferreira - arte educador, faço assessoria em artes para ONGs, prefeituras, empresas e particulares. trabalho com teatro, circo e contação de histórias.

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